No dia 31 de agosto, o destino de milhares de pessoas mudou para sempre...
Estamos habituados a ver a tragédia como números, e não como o sofrimento dos outros, e isso pode ter consequências terríveis para cada um de nós.
Todos os detalhes a seguir na revisão dos eventos climáticos da semana passada, de 27 de agosto a 2 de setembro de 2025.
O furacão tropical Erin, que atingiu a categoria 5 no Atlântico, mais tarde transformou-se num dos ciclones extratropicais mais poderosos das últimas décadas — a velocidade do vento atingiu 259 km/h.
O ciclone atingiu os países europeus com ventos violentos, ondas de 14 metros e chuvas torrenciais, causando grandes cortes de energia, inundações e deslizamentos de terra.
A 28 de agosto, o ciclone trouxe uma forte tempestade com granizo à ilha francesa da Córsega. Devido às chuvas intensas, a visibilidade chegou a ser nula em alguns momentos. No entanto, os maiores estragos foram causados pelo vento, com rajadas que atingiram 159 km/h na comuna de L'Île-Rousse, 158 km/h em Cagnano e 138 km/h em Calvi.

Uma forte tempestade atingiu a ilha francesa da Córsega, com visibilidade quase nula
Um incidente raro ocorreu no aeroporto da comuna de Calvi: uma tempestade levantou a parte dianteira de um avião de passageiros ATR-72 que se encontrava na pista de descolagem e virou-o 45 graus.
A tempestade arrancou várias árvores, danificou infraestruturas e edifícios, deixando cerca de 10 mil consumidores sem eletricidade. Em duas horas, foram registados 800 relâmpagos.
A 29 de agosto, foram registados sete tornados em França, quatro dos quais atingiram a região da Nova Aquitânia. Dois deles atingiram a força IF1, causando danos consideráveis em edifícios, árvores e plantações.
A região italiana da Lombardia foi gravemente afetada. No dia 28 de agosto, a comuna de Busto Arsizio registou mais de 100 mm de precipitação, o que provocou inundações.
No dia seguinte, um tornado destruiu uma central solar com quase 12.500 painéis na comuna de Verretto, na província de Pavia, deixando grande parte da cidade sem eletricidade. O redemoinho arrancou os telhados das casas e uma árvore centenária caiu na estrada, bloqueando o trânsito.

Tornado destruiu uma grande central solar na comuna de Verretto, província de Pavia, Itália
As consequências das tempestades também se fizeram sentir na região de Trentino-Alto Ádige. Na cidade de Riva del Garda, um raio atingiu uma habitação, provocando um incêndio e danificando tubos de gás, o que levou à evacuação de nove famílias.
Na região de Piemonte, a tempestade trouxe granizo devastador. Na região entre Ivrea e Pavone Canavese os granizos com 7 a 8 cm de diâmetro, deixaram dezenas de carros com amolgadelas e vidros partidos. Os telhados e as molduras das janelas sofreram danos graves, tendo muitos painéis fotovoltaicos sido destruídos.
Felizmente, não se registaram feridos graves, mas os residentes ficaram chocados com a força da natureza.
O ciclone afetou também outros países da Europa: na Irlanda e no Reino Unido, trouxe ventos com força de furacão, que em algumas regiões ultrapassaram os 160 km/h.
Nos Alpes Ocidentais, no Maciço Central e no norte de Espanha, caíram até 200 mm de precipitação em 48 horas, o que provocou deslizamentos de terra e inundações.

Chuva forte com granizo na Espanha inundou as ruas
Nos países bálticos e na Finlândia, os resquícios do ciclone Erin provocaram tempestades prolongadas sobre o mar Báltico, com o nível da água a subir entre 1m e 1,5 m acima do normal.
Nos Balcãs, na Hungria e em algumas regiões de Itália, a temperatura manteve-se entre 8 e 10 °C acima da média para a época, o que constituiu um recorde local no final do verão.
O ciclone afetou também países da Europa Central e Oriental, nomeadamente a Alemanha, a Suíça, a Áustria, a República Checa e a Polónia.
Isso é um caso extremamente invulgar, que um antigo furacão tropical, formado no centro do Atlântico, tenha chegado à Europa e que tenha mantido a sua força, espalhando-se por grande parte do continente.
A 29 de agosto, na Islândia, na península de Reykjanes, foram registados três tornados ao mesmo tempo.

Forte tornado varre a península de Reykjanes, na Islândia
Um tornado foi filmado por uma testemunha ocular perto da cidade de Vogar, na costa da baía de Faxaflói.
Outros dois tornados surgiram na região das várias crateras vulcânicas de Sundhnukur, próximo da cidade de Grindavík. Permaneceram visíveis durante cerca de três minutos, girando sobre a paisagem vulcânica.
Tornados na Islândia são extremamente raros: desde a década de 1980, registaram-se apenas 13 casos semelhantes. O aparecimento simultâneo de dois redemoinhos é um fenómeno absolutamente único.
A 30 de agosto, na Rússia, no rio Ob, na região da cidade de Surgut, várias pessoas testemunharam a formação de um tornado aquático.
O redemoinho formou-se a partir de nuvens convectivas e permaneceu sobre a água por algum tempo sem representar perigo.

Um fenómeno raro: tromba de água no rio Ob, na região da cidade de Surgut, Rússia
É importante salientar que a cidade de Surgut está localizada no norte da Sibéria Ocidental, na região de Tyumen. Em termos climáticos, é equiparado ao Extremo Norte, estando localizado na zona de clima continental subártico, onde anteriormente estes fenómenos eram extremamente raros.
No entanto, o aumento da temperatura global e da humidade no planeta está a criar condições ideais para a formação de tornados e trombas de água, mesmo em regiões onde praticamente nunca tinham ocorrido.
Na noite de 31 de agosto, os habitantes da região central da Argentina enfrentaram um grande desafio. Uma tempestade típica da região, a Santa Rosa, transformou-se numa força da natureza extremamente forte, ultrapassou todos os recordes de precipitação, causando inundações, destruição e a paralisação das infraestruturas.
A “Santa Rosa” é uma tempestade intensa, com chuvas torrenciais, trovoadas e granizo, típica dos países da América do Sul. Ocorre anualmente no final de agosto e início de setembro.

A tempestade “Santa Rosa” atingiu a Argentina com granizo intenso
Na capital, Buenos Aires, as chuvas continuaram durante várias horas, acompanhadas de rajadas de vento de até 70 km/h.
Muitas localidades no norte da província de Buenos Aires ficaram inundadas. Na região de Carlos Casares, os habitantes relataram a perda de colheitas e de gado.
Na província de Mendoza, mais de 100 pessoas ficaram sem abrigo. A tempestade derrubou árvores, arrancou telhados e trouxe granizo de grande dimensão. A chuva forte, a neve e o nevoeiro nas regiões montanhosas provocaram o encerramento total da estrada nacional n.º 7.

A chuva, o granizo e a neve criaram condições perigosas nas estradas da província de Mendoza, na Argentina
As passagens internacionais de Cristo Redentor e Pehuenche, que ligam o Chile à Argentina, foram encerradas preventivamente em ambos os sentidos.
A cidade de Cruz Alta, na província de Córdoba, foi a mais afetada pelas inundações, tendo sido registados 330 mm de precipitação em apenas 24 horas. A baixa altitude da cidade favoreceu o escoamento de água das áreas circundantes. As cheias destruíram habitações e estradas, causaram erosão do solo e colocaram em risco a atividade agrícola.
Situação semelhante ocorreu na cidade de María Teresa, na província de Santa Fé, igualmente situada numa bacia hidrográfica.

A tempestade “Santa Rosa” provocou fortes inundações na cidade de María Teresa, na província de Santa Fé, na Argentina
O setor agrícola da região central da Argentina sofreu consequências catastróficas devido às inundações. Milhares de hectares de terra ficaram alagados e os equipamentos agrícolas não conseguiram chegar aos campos, pelo que a nova campanha de plantação e a colheita de soja, milho, girassol e trigo foram interrompidas.
No dia 29 de agosto, chuvas torrenciais atingiram a província afegã de Nangarhar, provocando inundações repentinas.
Nas zonas afetadas de Rodat, Haska Mina, Chaparhar, Spin Ghar e Achin, dezenas de habitações foram destruídas, enquanto estradas, barragens e canais sofreram danos, e milhares de hectares de terrenos agrícolas foram devastados.

Chuvas torrenciais destruíram as plantações na província de Nangarhar, no Afeganistão
Na região de Spin Gar, duas meninas perderam a vida ao ficarem presas sob o telhado de uma casa que caiu devido às chuvas, enquanto outros três membros da família ficaram feridos.
No total, a catástrofe natural provocou a morte de cinco pessoas na província.
No final da noite de 31 de agosto, às 23h47 (hora local), as províncias orientais do Afeganistão foram abaladas por um forte terramoto de magnitude 6,0. O epicentro localizou-se a cerca de 27 km da cidade de Jalalabad e o foco situou-se a uma profundidade de apenas 8 km.
Segundo os dados de 4 de setembro, o terramoto fez mais de 2.200 mortos e mais de 3.300 feridos no país.
Nos dois dias seguintes, foram registadas pelo menos 10 réplicas com magnitude igual ou superior a 4,0. Três delas ultrapassaram a magnitude 5,0 e ocorreram a uma pequena profundidade, até 11 km. Segundo os habitantes locais, as casas que tinham ficado apenas parcialmente danificadas durante o sismo principal foram posteriormente totalmente destruídas. Muitas aldeias ficaram em ruínas, com mais de 6.700 edifícios destruídos.
O acesso a algumas das zonas mais afetadas era impossível, uma vez que as estradas estreitas se encontravam bloqueadas por deslizamentos de terra e pedras, e o relevo acidentado da região dificultava a entrega de ajuda. As vítimas foram transportadas de helicóptero para os hospitais mais próximos.
Devido à escassez de ajuda profissional, as operações de salvamento foram também realizadas pelos próprios habitantes locais. Sem equipamento adequado, removeram os escombros das casas de barro e pedra com as próprias mãos.

Terramoto de magnitude 6,0 no Afeganistão teve consequências catastróficas
As réplicas interromperam as operações de resgate, resultando na perda de tempo vital para salvar as pessoas que permaneciam soterradas.
Os testemunhos de quem viveu os acontecimentos revelam a dimensão da tragédia. Um jovem de 14 anos ficou ferido quando a sua casa desabou, mas cinco membros da sua família perderam a vida. O rapaz conseguiu salvar apenas o pai, cuja voz ouviu debaixo dos escombros.
Este terramoto tornou-se um dos mais devastadores do país nas últimas décadas.
No dia 31 de agosto, na fronteira entre as províncias de Darfur Central e Darfur do Sul, registou-se um forte deslizamento de terras, consequência de vários dias de chuvas torrenciais consecutivas. A aldeia de Tarsin, situada na cordilheira de Marra, ficou completamente soterrada sob uma camada de lama e pedras.
Mais de mil pessoas perderam a vida nesta catástrofe natural, tendo apenas um habitante local sobrevivido.
Este deslizamento de terras foi o mais mortal da história recente do país. Os trabalhos de resgate decorreram em condições extremamente difíceis, devido ao relevo montanhoso complexo, às chuvas incessantes, às estradas destruídas, à falta total de comunicações e aos combates ativos.

Um forte deslizamento de terra no Sudão destruiu a aldeia de Tarsin — mais de mil pessoas perderam a vida
Os habitantes das aldeias vizinhas receiam que a tragédia se repita se as chuvas torrenciais não cessarem.
A situação é agravada pela grave crise humanitária na região, que está a ser assolada por conflitos armados, fome e deslocamento em massa da população.
E este é apenas um dos muitos exemplos de como as catástrofes estão a aumentar rapidamente, enquanto o mundo permanece indiferente.
É estranho que um grande número de pessoas inteligentes e com formação compreenda perfeitamente que estão a ocorrer acontecimentos terríveis — os cataclismos estão a intensificar-se, há mortes em massa, a divisão aumenta — e, no entanto, a sociedade permanece em silêncio, sem tomar nenhuma atitude. Não será esta uma prova da perda da humanidade?
Muitos esperam que aconteça algo extraordinário, como um desastre natural de dimensão mundial ou a morte de um grande número de pessoas, para que se sintam abalados a ponto de despertar a sua compaixão e os motivar a agir.
No entanto, na realidade, não é assim. Lembre-se do jovem afegão que perdeu quase toda a família: quando vemos a tragédia de uma pessoa, sentimos compaixão. No entanto, quando se trata de milhares de vítimas, isso é percebido apenas como uma estatística fria. A empatia desaparece e surge o medo: “E se eu também morrer?”
É assim que funciona a psicologia humana. Quanto mais nos aprofundamos na era das catástrofes climáticas, menos as vítimas em massa despertam a compaixão da maioria das pessoas. A empatia enfraquece gradualmente, ao passo que o egoísmo e o medo pela própria vida intensificam-se.
Se não sentirmos a necessidade de ajudar os outros, de responder ao seu sofrimento, então as pessoas à nossa volta reagirão da mesma forma.
Como resultado, corremos o risco de acabar numa sociedade em que cada um vive exclusivamente para si mesmo, em que as pessoas estão dispostas a tirar até ao último cêntimo aos idosos e às crianças, em que a vida humana não vale nada.
No entanto, será que algum de nós gostaria de se encontrar, um dia, numa situação difícil ou mesmo crítica, completamente sozinho e sem apoio?
Existem muitas pessoas no planeta que se esforçam por viver de acordo com a sua consciência. No entanto, a maioria permanece inativa, satisfeita com o seu pequeno mundo, onde estabeleceram boas relações com os entes queridos, viveram em harmonia com a natureza e encontraram a paz interior. No entanto, enquanto cada um se fecha no seu espaço confortável, todo o nosso mundo comum continua a afundar-se devido à nossa indiferença.
Hoje, é precisamente a questão climática que está em primeiro lugar. Enquanto as pessoas não compreenderem a sua dimensão e a ameaça real, não conseguirão abandonar as divisões e os conflitos que lhes foram artificialmente impostos.
Para mudar a situação, é necessário colocar o problema em destaque em toda a sociedade. E isso só será possível quando as próprias pessoas começarem a falar sobre o assunto. Não vale a pena esperar por mudanças da parte de pequenos grupos de pessoas, sejam eles políticos, líderes religiosos ou líderes de opinião.
O futuro depende de cada um de nós, enquanto seres humanos.
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